10 de setembro de 2006

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Em conversa com A. lembrei-me desta crónica, publicada originalmente no JL e o ano passado, n'O MEU QUERIDO TITANIC. E porque está calor e ainda falta muito para se ouvirem os guizos, se enfeitarem as árvores e se pensar nos outros, publico-a aqui. De graça, para os meus não-leitores de livros.


"MERRY CHRISTMAS MR. GOD

Está frio, na minha sala com quadros na parede e um sofá simples mas confortável. Arrefeceu bastante, este Inverno. Daquele frio estúpido de quem mora ao pé da água e longe de montanhas que tragam neve. O telemóvel toca. É um amigo que mora longe e tem um motorolacinquenta. Dói-lhe já não sei o quê. Mas nada que não possa curar com um ida ao médico que ele poderá pagar. Vem-me à cabeça a imagem de um dos muitos sem-abrigo que se espalham pela cidade. Aquele telemóvel dava para umas quarenta refeições decentes, pelo menos...

Na televisão passam projecções eleitorais e agitar de bandeirinhas. Quanto terá custado todo este circo partidário? Não foi de borla, de certeza... De boleia com um motorista e dono de pequena agência publicitária, na província, fiquei no outro dia a saber que os outdoor são, agora, feitos em vinil. Para não se estragarem com a chuva, diz-me. Por umas centenas de contos podemos ver a cara escarrapachada dos candidatos ao poder, até o Chico vir da areia. O que quer dizer, por mais tempo do a duração das suas promessas. Ainda bem que se evoluiu: já parecia mal ver os papéis dos cartazes a murcharem em direcção aos buracos das ruas. Afinal já somos Europa.

Esta tarde, um actor de telenovela afirmava que "Natal era tempo de pensar nos outros". Fiquei varado de espanto. Nunca teria esta revelação se não fosse ele? Durante uns dias vamos dividir o que normalmente puxamos só para nós. Só não percebi se o prazo acabava mesmo à meia-noite de dia 25 ou se me era permitido ajudar os menos afortunados de vez em quando...

Já é tarde. O alcoólico que costumo ver deitado em papelões num recanto da D.Luis I já deve estar a dormir. Com que sonhará ele? Provavelmente com uma cama macia e um cobertor por cima. Lembro-me de Primo Levi, um escritor judeu italiano que sobreviveu a um campo de concentração, e interrogo-me em nome de quê conservamos gente a passar fome às nossas portas.

Imagino uma oração que começasse assim:

"Bem-aventurados os que acreditam que é necessária uma quadra festiva para se estar com os outros; os que julgam que o mundo é o mesmo desde que Deus o criou e que sempre assim será, ou por que outra razão ele o teria construído imperfeito; os que constroem estradas sobre estradas não se lembrando que um círculo não é mais que a junção de duas rectas tontas que não sabem onde para onde vão; os que defendem os direitos dos fumadores contra os fanáticos da saúde e que julgam ser sua a voz que lhes sai da garganta e não o som da droga mascarada de coisa avançada; os que se suicidam em nome de Alá, primos dos que mandaram executar judeus em nome de Cristo e irmãos dos que avançam com tanques pelas palestinas terras escritas sabe-deus-por-quem num bestseller chamado «Bíblia» e que tomam um prepúcio mutilado pelos homens como um sinal de imunidade divina; os que votam em candidatos que dizem transformar cidades-inferno em jardins-paraíso com um toque de magia; aos que têm tomates para mentir descaradamente a indispensabilidade de Valores Absolutos, enquanto à noite despem o fato e partem para engates nos seus carros de dez-mil-contos-pra-cima; às mulheres que dizem votar em consciência contra a despenalização do aborto e, na semana seguinte, vão (usando a expressão M.E.C.iana) «abrir as pernas a Londres», livrando-se do descuido; aos brancos que constroem casas à prova de pretos famintos; aos pretos que constroem casas à prova de brancos esfarrapados; aos preto e brancos que constroem casas à prova de todos os que não são iguais a si próprios; aos que julgam que o dinheiro que metem ao domingo na caixa das esmolas para a Senhora do Imaculado Coração, ou paras almas do Purgatório, vai direitinha aos pobres do mundo; aos que caminham embriagados para as catedrais de futebol e, beijando os cachecóis, dizem: «Isto é que é sagrado»; aos que julgam que as vozes discordantes se calam com manobras perversas, murros na boca e despedimentos; aos que bateram hoje nos seus filhos, julgando estar a dar-lhes uma mensagem de amor; às mães que se julgam pai e mãe; aos pais que se julgam mãe e pai; aos que cortam o cabelo no mesmo barbeiro do pai, porque não concebem que haja outra forma de talhar o bonito louro; aos que criaram uma ruga no meio da testa por tanto criticarem o mundo em vez de tentarem compreendê-lo nas suas imperfeições; aos jovens que acreditam que serão assim para sempre e que não existe nada para lá da perfeição dos seus corpos; aos Pais-Natais que se juntam às portas dos centros comerciais deixando as crianças confusas com o milagre da sua multiplicação; aos mesmos que descem de helicóptero em colégios pobres ostentando os logos das empresas patrocinadoras... Porque é deles, segundo o bestseller, o Reino dos Céus.

E já agora..." Bem-aventurados:

Os que abraçaram hoje de manhã aqueles com quem vivem; os que se voluntarizam todo o ano para encontrar roupas, comidas e palavras de reconforto e levam tudo isso aos vãos de escada húmidos, tresandando a urina; aos que acreditam que é possível viver sem mentir aos outros; aos que crêem que o mundo é mais imperfeito que a Vida; aos poetas, por verem as várias dimensões do mundo e tentarem pôr em palavras a linguagem do Invisível; aos frades de toda a espécie que se levantam cedo e no desconforto das suas celas se sentem felizes por estarem habitados por uma luz maior que natural; às mulheres que lavam escadas para pôr o pão no prato de filhos que, em troca, lhes cospem em cima e reclamam ténis de vinte contos ou mais; aos homens que amassam cimento e pregam tábuas, em silêncio, para que atrás referidos atletas se divirtam em tertúlias e orgias de batas pretas e cervejolas; os que atravessaram continentes para no meio de línguas estranhas e máfias exploradoras tentarem criar uma família; os que irão morrer por estarem algures no mundo a dar vacinas e a meter colheres de alimentos na boca de crianças com a face coberta de moscas, enquanto à sua volta, famintos desconfiados discorrem sobre o que fará este estrangeiro no meio deles e se será muito difícil estrangulá-los e fugir com o seu relógios que parece valioso Bem-aventurados os que amam... Porque deles, deveria ser o Reino da Terra..."

Estranho... De repente, a minha sala amornou... Feliz Natal."

in O MEU QUERIDO TITANIC

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